segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Adeus ao Magnifico Mestre Sala - Cabeleira


São coisas que só Deus sabe explicar, o sambista Antônio Chagas Campo – O Magnífico Mestre Sala Cabeleira, após alguns dias internado na UTI do Hospital João Paulo II, em virtude de AVC e outras complicações, faleceu na tarde desta segunda feira dia 2 de dezembro – Dia Nacional do Samba.
Não poderia existir data melhor para sua partida, Cabeleira praticamente dedicou toda sua vida ao samba, ainda jovem, participou da fundação da Escola de Samba Os Diplomatas da qual foi presidente e Mestre Salas durante muitos carnavais; Foi presidente da Associação das Escolas de Samba e Entidades Carnavalescas de Rondônia – AESB e  fundador da Federação das Escolas de Samba de Rondônia – FESEC além de ser o atual presidente da Escola de Samba Acadêmicos do Armário Grande. Sua luta atual, era colocar em funcionamento a Liga Independente das Escolas de Samba. “Atualizei toda a documentação da Liga, não sei por que a turma não concorda com sua reativação” sempre dizia Cabeleira.
Cabeleira nasceu no dia 10 e setembro de 1939 em Manaus (AM) e ainda adolescente veio morar em Porto Velho e por algume tempo no Rio de Janeiro. Estava com 80 anos e como se diz: “Em plena forma”, pelo menos era o que ele passava para todos seus amigos e familiares, apesar de ainda estar se recuperando do tratamento de um Câncer que segundo ele, estava curado. Boêmio por excelência apesar da idade, Cabeleira não perdia um evento, em especial se fosse relacionado a Samba e Escola de Samba, sempre extrovertido, gostava de mostrar aos sambistas atuais, sua habilidade, executando passos de Mestre Sala fosse onde fosse, sempre dizia: “Esses meninos de hoje, precisam prestar atenção na ginga do VELHINHO aqui” e saia rodopiando pelo salão.
No dia 02 de novembro passado, por coincidência, dia de finados, Cabeleira foi homenageado pela Associação Cultural Rio Madeira e Fundação Serpa do Amaral com a Comenda “Ordem Cultural Bola Sete”, durante a realização do Projeto Samba Autoral coordenado pela diretoria da escola de samba Asfaltão.
Há um ano, entrevistei o Cabeleira sobre suas atividades como sambista. Vamos reproduzir essa entrevista:
Antônio Chagas Campo – O Magnífico Mestre Sala Cabeira.
N.R – O velório está acontecendo na Funerário São Cristóvão e o enterro será às 16 horas, desta terça feira 03, no cemitério do Inocentes em Porto Velho.
ENTREVISTA    

Recebendo a comenda Merito Cultural Bola Sete
Zk – Sabemos que você é um dos fundadores da escola de samba Os Diplomatas, antes disso, você brincava carnaval em qual agremiação?
Cabeleira – Quando vim do Rio de Janeiro – eu já dava umas pernadas lá – isso em 1956/57 o Bainha me chamou pra gente fundar uma escola de samba porque só tinha o Bloco do Valério da Dona Jóia, aí nos juntamos com Valério, Ricardo, Dona Jóia, Alex e o Leônidas e criamos o que chamamos de escola de samba.
Zk – Por que você diz: “Chamamos de escola de samba”?
Cabeleira – Porque realmente não era uma escola de samba, era uma bateria com 31 integrantes tudo homem, até eu estava lá balançando um Ganzá. Nesse mesmo estilo, existia a escola de samba “Deixa Falar do Bola Sete” que também era só uma bateria e a escola de samba “O Triângulo Não Morreu” que tinha o Gia, Cardoso, Miguel e Paulo Machado. O Triângulo tinha mulher e até instrumento de sopro. Todos desfilavam dentro do Cordão de Isolamento. Cardoso e Gia puxavam Cuíca, o Guarda Miguel era o responsável por esticar ou montar os couros dos instrumentos. Naquele tempo, os tambores eram de couro de cobra, veado, e outros bichos do mato como porquinho, tudo comprado na “Casa José Oceano Alves” que ficava no Mercado Municipal (hoje Mercado Cultural). O Bainha era pra ser um dos melhores cuiqueiros do Brasil na época, pois o Zé Ferino da Mangueira assim profetizou: “Esse menino vai longe”. Você perguntou onde eu brincava, era nas escolinhas de samba do Rio de Janeiro depois conheci o Mestre Sala Delegado fui pra Mangueira beber por lá, naquele tempo a cachaça da moda era Parati, depois fomos conhecer o Salgueiro. Quando a Beija Flor era do Grupo de Acesso os desfiles eram na avenida Getúlio Vargas.
Zk – Sobre a rivalidade Diplomatas X Caiari?
Cabeleira – A Caiari surge em 1964 e só vem vencer da Diplomatas no carnaval de 1970, quando o desfile foi na Pinheiro Machado. Naquele ano  desfilei com uma fantasia preparada pela dona Juraci Mateus que era o luxo dos luxos. Era dona Florípedes na Caiari e dona Juraci na Diplomatas. Nosso enredo era sobre a Assinatura da Lei Áurea e a moça que desfilou representando a Princesa Izabel que vinha num carro alegórico, em frente ao Palanque dos jurados, fez a representação da assinatura da Lei Áurea que abolia a escravidão no Brasil, só que deram pra ela uma CANETA BIC coisa que na época da assinatura da Lei não existia, isso tirou um bocado de pontos da escola. Ainda por cima, o Samba era plágio do samba do Salgueiro e os jurados por isso também tiraram pontos da Diplomatas e a Caiari com um samba de sua autoria (de Silvio M. Santos) e enredo da Dona Marise Castiel “Sinhá Moça e a Abolição” ganhou ‘molim’ da gente.
Zk – É verdade que a Diplomatas não nasceu com esse nome?
Cabeleira – A Diplomatas nasceu na casa do Valério que era na Joaquim Nabuco sub esquina com a Almirante Barroso bem em frente, naquele tampo, ao açougue do Casemiro depois foi que virou bar, com o nome de “Prova de Fogo” a pedido do Tário de Almeida Café nosso primeiro presidente, que queria homenagear um bloco que ele tinha em Fortaleza Ceara. Desfilou com esse nome apena no carnaval de 1959 em 1960 adotou o nome “Universidade dos Diplomatas do Samba”, sugerido pelo Bizigudo. Em meados dos anos de 1960, passou a ser apenas Os Diplomatas por sugestão do Bainha. A primeira costureira da Diplomatas foi dona Marieta mãe do Bainha. Depois o Abel Marques passou a nos fornecer camisetas da Martine e a gente vestia os batuqueiros com aquele camisa.
Zk – Os desfiles eram aonde?
Cabeleira – A gente subia a José de Alencar dobrava na Carlos Gomes e descia pela Presidente Dutra até o Porto Velho Hotel, onde ficávamos esperando a ordem para iniciar o desfile oficial que terminava na praça Rondon.
Zk – Como é que o Leônidas entra para a história da Diplomatas?
Cabeleira – É uma história delicada! Acontece que o Leônidas era uma espécie de Office Boy na casa da Valério, mas, já andava com a gente na boemia e na minha concepção, ele estava presente na reunião que criamos a Diplomatas sim, quem contesta, não sei por que, a presença dele, é o Bainha, mas, pra gente ele é considerado fundador da escola também.
Zk – A rivalidade entre você e o Vitor Sadeck. Ele diz que você nunca ganhou dele como Mestre Sala é verdade?
Cabeleira – Era engraçado! Naquele época, quem tinha influencia política como a Dona Marise, pesava, ninguém derrubava ela. Então o Vitor Sadeck que era vestido pela Dona Florípedes uma das melhores modistas da época. Era puro luxo as fantasias dele, porém, ele nunca teve um mestre como professor como eu tive o Delgado e o Canelinha os melhores do Brasil. Não é que o Vitinho dançasse melhor, ele tinha a dona Marise por trás. Outro que morreu com raiva de mim foi o Babá que surgiu na Diplomatas com passistas e depois foi pra Caiari como Mestre Sala. Ficou com raiva de mim porque eu disse que ele não dançava. Mestre Sala não segura à cintura da Porta Bandeira ele apenas reverencia o pavilhão. Não sei não, até hoje não vejo nenhum Mestre Sala nas escolas de Porto Velho que saiba dançar.
Zk – Você participou da embaixada que foi trocar a bandeira nacional em Brasília?
Cabeleira – Aquilo foi o maior espetáculo que já participei como Mestre Sala. Foi em 1975 e naquela viagem, nasceu à escola de samba Mocidade Independente do KM-1 fundada entre outros, por você e o Bainha. Em Brasília ainda se apresentou como Pobres do Caiari porque desfilou de azul e branco. Quando nossa apresentação terminou, os diretores da escola de Samba do Cruzeiro lá de Brasília vieram conversar comigo e me convidaram para ficar lá desfilando pela escola deles, me ofereceram algumas vantagens, o Bainha que estava perto, ouvindo a conversa, se meteu no meio da gente e foi dizendo “Ele não pode ficar aqui não e nem vai ficar ele é nosso”. Os caras ficaram chateados com a maneira que o Bainha os tratou e mesmo assim, ficaram insistindo e eu não fiquei, porque, além de ser funcionário do Território de Rondônia era casado e tinha um bocado de filho pra criar.

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