LIVRO - HISTÓRIA DO CARNAVAL EM PORTO VELHO

Histórias do Carnaval em PVH


Por Silvio M. Santos

A partir desta edição em todas as edições do Diário de sábado e domingo, vamos publicar em capítulos o livro “História do Carnaval em Porto Velho”, que escrevemos e está prontinho da silva, esperando apenas patrocínio ou apoio cultural para ser impresso.
Sem a pretensão de sermos considerado historiador, até porque, o que passamos a publicar não pode ser considerado como “pesquisa científica”, artigo ou outro termo usado para classificar estudos desenvolvidos por pesquisadores graduados. O que vamos apresentar é nossa vivência no meio carnavalesco de Porto Velho, como um dos fundadores das Escolas de Samba “Os Pobres do Caiari” e “Mocidade Independente do KM-1”, da “Banda do Vai Quem Quer”, “Bloco do Purgatório” e tantos outros de menor influencia em nossa carnaval. Principalmente o carnaval de rua.
Aqui o leitor vai ficar conhecendo como acontecia o carnaval de Rua em Porto Velho da década de 1920 até os dias atuais. Passamos também pelas primeiras composições musicais de compositores radicados em nossa cidade, precisamente no naipe musical do Samba e Marchinhas tradicionais.
Dos corsos, aos blocos dos clubes sociais, das escolas de samba aos blocos de trio elétrico da atualidade.
Fatos pitorescos dos bastidores do nosso carnaval e muitas outras histórias.
Acompanhe o primeiro capítulo do livro de Silvio M. Santos “História do Carnaval em Porto Velho”

Desfile dos corsos

Os desfiles de blocos e cordões carnavalescos, pelas ruas de Porto Velho, acontecem desde a década de 1920, segundo dona Labibe Bártolo e o historiador Capitão Esron Menezes – CEM.
Na época do Clube Internacional, da Rua da Palha, do Beco do Mijo, no tempo que a Mãe de Santo Esperança Rita montou o "Batuque de Santa Bárbara" no Mocambo. No tempo da Casa Três que ficava justamente onde hoje é a Rua Rogério Weber entre Os Correios e a Praça dos Engraxates; da Casa Seis onde hoje está a Capitania dos Portos na Rua Henrique Dias, da Pensão Guaporé onde hoje é o prédio do Sated em frente ao Ferroviário pela Avenida Sete de Setembro. No tempo do Paraíso que ficava na Avenida Farquar ali onde hoje é o prédio da Embratel e da Pensão do Napoleão que se fosse hoje, seria ali no canto da Rogério Weber com o Henrique Dias. No tempo do Hotel Brasil que ficava no terreno onde hoje funciona o Centro de Formação da Prefeitura Municipal (Teatro Banzeiro). No tempo que o Ypiranga era num casarão de madeira e sua frente ficava para a Farquar e os fundos, para a Rua Euclides da Cunha e no mesmo casarão funcionava a Rádio Difusora do Guaporé.
Bom! O que queremos dizer, é que o carnaval de Rua de Porto Velho já existia e, como a cidade acabava onde hoje é a Praça Jonathas Pedrosa (que nasceu Praça Amazonas), os foliões e seus blocos só iam até ali e voltavam, na maioria das vezes dobravam na José de Alencar rumo a D. Pedro II e desciam a Presidente Dutra até a Praça Rondon. Segundo Esron Menezes: Em determinado carnaval, os jovens da sua turma, resolveram criar o "Bloco da Cobra" para perturbar os "categas" que freqüentavam o Clube Internacional cujo prédio de madeira era onde hoje está o Ferroviário Atlético Clube. A alegoria foi feita de flande, "acontece que não conseguimos entrar no clube e ficamos carregando a cobra pela Sete de Setembro e escolhemos como local de descanso, a frente do Cine Brasil que já existia". Essa é a prova mais contundente, de que os desfiles dos blocos e cordões de Porto Velho primeiramente aconteceram na Avenida Sete de Setembro. Na realidade, até a década de quarenta, o que mais predominava pelas ruas de Porto Velho durante os três dias de carnaval, eram os desfiles dos chamados Corsos, que consistia em foliões fantasiados em carros de passeios e até caminhões que ficavam desfilando para o público que se colocava ao longo da avenida, onde os Corsos desfilavam.
Isso durou até os blocos dos clubes sociais tomarem conta da avenida.

HISTÓRIA DO CARNAVAL EM PORTO VELHO
13/11/2010 - [19:53] - História

Apesar da grande animação nos bailes carnavalescos desses clubes, nosso carnaval de rua só passou a “pegar fogo” de verdade a partir de 1950
Por Silvio M. Santos
Nos clubes entravam só a “alta”
Hoje o Zekatraca conta um pouco sobre os memoráveis bailes no Ypiranga, Bancravé e companhia da folia

Como dissemos, os corsos dominaram os desfiles carnavalescos em Porto Velho até o inicio dos anos 50. Porém, os clubes existentes à época mantinham seus blocos com o intuito de animar os bailes carnavalescos. Esses bailes começam a ser realizados a partir do mês de outubro quando os clubes promoviam os famosos “Grito de Carnaval”. Vale salientar que os grandes cordões carnavalescos pertenciam aos clubes Internacional, Noroeste e Ypiranga. O Noroeste era dirigido pelo seu Elias Gorayeb e era frequentado pelas famílias dos seringalistas e comerciantes mais abastados. O Ypiranga tinha como

Baile de Carnaval no Clube Internacional
Porto Velho em 1939
Sócios os chamados “Categas” funcionários públicos que exerciam cargos de confiança, na Madeira-Mamoré, na prefeitura e depois no governo do Território Federal do Guaporé.

O Clube Internacional funcionava como se fosse o Clube Oficial da cidade, já que reunia o alto escalão dos funcionários da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Contam os mais antigos, que em determinada época ou quando Aluizio Pinheiro Ferreira assumiu a direção da Estrada de Ferro e depois como primeiro governador do Território Federal do Guaporé, os bailes no Internacional só começavam quando ele chegava.
O Clube Internacional fechou suas portas na segunda metade dos anos 1950. Era um casarão de madeira que ficava a Rua Sete de Setembro, justamente onde hoje se encontra a sede do Ferroviário Atlético Clube. Seu bloco carnavalesco só brincava na sede, quer dizer, não participava dos desfiles pelas ruas da cidade, nem mesmo em corsos.
O Ypiranga que existe desde 1917 sempre se destacou nos desfiles carnavalescos colocando seus blocos, agora a grande pedida no inicio da nossa Porto Velho era o Bloco do Noroeste.
Apesar da grande animação nos bailes carnavalescos desses clubes, nosso carnaval de rua só passou a “pegar fogo” de verdade a partir de 1950, quando os clubes sociais passaram realmente a dominar o carnaval de rua com os desfiles dos seus blocos.


Os blocos da Presidente Dutra

Quando me entendi como gente, já em meados da década de cinquenta, os desfiles aconteciam na rua Presidente Dutra entre a D. Pedro II e a 7 de Setembro. O interessante, era que os blocos desciam a Presidente Dutra passando pela frente do Porto Velho Hotel (hrje Unir Centro), se apresentavam para as autoridades e jurados em frente ao palanque, geralmente instalado na Rua Henrique Dias entre o prédio do Banco do Brasil (hoje Sesc) e a Pensão do Napoleão, ao lado da Associação Comercial. Depois de se apresentarem para os jurados e autoridades, os blocos seguiam até a Praça Rondon e dobravam a esquerda na Sete de Setembro e depois, já sem tocar (a maioria), subiam a José de Alencar até a D. Pedro II e retornavam pela Presidente Dutra desfilando novamente para o público, jurados e autoridades.
Os blocos eram formados por sócios dos chamados clubes sociais, cujos mais famosos eram: Ypiranga (o clube dos categas); Danúbio Azul Bailante Clube; Guaporé; Imperial e depois veio o Bancrévea Clube (dos Bancários do Banco da Borracha).
Sem que nada determinasse, esses blocos se identificavam por categoria social e cada categoria disputava entre si. Por exemplo: o Bloco do Ypiranga disputava com o Bloco do Bancrévea; o Bloco do Danúbio com o do Guaporé e Imperial. Se o Bloco do Clube Guaporé ganhassem do Bloco do Danúbio e do Imperial, pronto, a festa estava feita, não interessava se havia perdido para Bancrévea ou Ypiranga.
Na realidade, a disputa mais esperada era a dos blocos dos clubes Ypiranga e Bancrévea, principalmente quando os dois passaram a ser comandados pela Professora Marize Castiel Bloco do Ypiranga e a empresária Neire Azevedo Bloco do Bancrévea.
Nessa época desfilavam os chamados blocos de originalidade, "Rei da Selva" do Valdemar Cachorro que disputava com o Bloco do Inácio Campos, além do famoso Bloco da Cobra e os blocos de sujo e foliões do “Bloco do eu Sozinho".
Os blocos de clubes sociais dominaram o carnaval de Rua de Porto Velho até meados da década de sessenta, quando perdem a hegemonia para as escolas de samba Diplomatas e Pobres do Caiari.

Grito de carnaval dos clubes sociais
As festas carnavalescas começavam em Porto Velho geralmente no mês de outubro. Ypiranga, Bancrévea, Danúbio Azul, Guaporé e Imperial promoviam os famosos “Grito de Carnaval”. A Rádio Difusora do Guaporé ZYY-20 anunciava esses bailes: “A diretoria do clube “tal”, convida seus associados para o 1º Grito de Carnaval que vai acontecer no próximo sábado a partir das 22h00”. O anuncio informava que o traje exigido era Fantasia ou Esporte Decente.
Vale salientar que nos clubes Ypiranga e Bancrévea não existia cobrança de ingresso, bastava o sócio estar em dia com a mensalidade que teria acesso ao baile.
No Danúbio Azul Bailante Clube, e Imperial era preciso comprar “Banca” (Mesa), apesar de também contarem com quadro de associados.
O fato interessante era que o Danúbio por ficar pertinho do Bancrévea. (O Bancrevea ficava na esquina da Carlos Gomes com a Campos Sales e o Danúbio na esquina da Tenreiro Aranha com a Carlos Gomes), e como as festas “Grito de Carnaval” aconteciam sempre no mesmo dia (sábado), os sócios (homens) do Bancrévea geralmente seringalistas, altos comerciantes e os considerados “categas” funcionários do Banco da Borracha, compravam “Banca” no Danúbio para suas amantes e de vez enquanto, alegando que iriam pegar um “vento” do lado de fora do clube, corriam até o Danúbio e ficavam alguns minutos com as “namoradas”, aliás, pagavam a conta e voltavam para suas esposas que estavam brincando carnaval no Bancrévea.
Os sócios do Ypiranga ficavam privados da proeza, porque o clube ficava longe de Danúbio e Guaporé, porém, a rapaziada solteira que morava no bairro Caiari era assídua freqüentadora das festas promovidas pelo seu Alumínio (Geraldo Siqueira) no clube Imperial (se fosse hoje seria na esquina da José de Alencar com a Almirante Barroso).
O Imperial também era conhecido como “Cai N’água” porque era um barracão de madeira construído sobre palafitas justamente porque no tempo do inverno (cheia), o local alagava e quando (era freqüente) acontecia briga entre os foliões, geralmente alguém era jogado pela janela e caia dentro d’água.
O Guaporé funcionava justamente no prédio ao lado onde hoje funciona a Rádio Boas Novas na José Bonifácio (a fachada é a mesma de quando funcionava como clube social) no bairro Olaria. João do Rato, Cabo Omar e outros sócios diretores, só liberavam a venda de “Banca” para família. O Guaporé era uma espécie de dissidência de alguns sócio do Danúbio que não concordavam que suas famílias se misturassem com mulheres de vida “duvidosa”. Em conseqüência disso, a rivalidade entre os blocos dos dois clubes era bastante acirrada, mais até do que a rivalidade entre os blocos de Bancrévea e Ypiranga.
Essa rivalidade era muito bem detectada durante as “Batalhas de Confetes” que aconteciam patrocinadas pela prefeitura municipal na Avenida Sete de Setembro a partir do mês de janeiro até o sábado magro, quando o Rei Momo desembarcava de uma Litorina na Estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré.


A prostituta que fez sucesso no Bancrévea

Ninguém escapa das irreverências da juventude, principalmente quando esses jovens são os chamados “filinhos de papai” cuja mesada é “gorda”.
Lá pelos idos dos anos sessenta, numa festa de Réveillon do Bancrévea um jovem que havia chegado para passar férias com os pais, soube que na “Pensão” da Maria Eunice havia chegado uma prostituta muito bonita, gostosa de dar dó. Era uma morena baiana que estava “alisando” seringalistas, empresários comerciantes, e os funcionários categas do governo territorial e da Madeira Mamoré. Ao tempo que a noite tomava o dinheiro dos “ricos”, de dia, gastava com o jovem gigolô no banho do Três e Meio.
Acontece que a jovem morena aceitou participar de uma brincadeira armada por esses jovem aceitando o convite para ir ao Réveillon do Bancrévea.
O jovem levou a prostituta ao melhor salão de beleza da cidade, patrocinou a compra no Mundo Elegante de um vestido super luxuoso afinal de contas, naquele tempo só entrava em festa de Réveillon quem estivesse fantasiado ou em traje de gala.
Para os pais disse que iria levar para a festa uma aeromoça da Panair do Brasil que conhecera na viagem do Rio para Porto Velho e era uma moça muito educada, afinal de contas para ser aeromoça da Panair do Brasil tinha que ser culta.
Por volta da meia noite o jovem chegou ao Bancrévea e os irmãos “Mão Branca” porteiros do clube, abriram aquele sorriso cordial abrindo caminho para o casal. O Jazz Brasil atacou Zé Pereira e o baile virou festa carnavalesca.
Os pais do jovem iam de mesa em mesa dizendo que a acompanhante de seu filho era aeromoça da Panair do Brasil. Como mentira tem perna curta, mal deu uma hora da madrugada, chega um engraçadinho do Ypiranga e ao ver a Morena da Maria Eunice ao lado dos pais do “mentiroso”, já meio truviscado e sob efeito de lança perfume (naquele tempo podia), foi dizendo em voz alta: “Hei Baiana o que você está fazendo aqui? Cadê a Olga e a Madalena?” os pais do jovem então indagaram: “Você também veio no vôo que ela era aeromoça?”
– Que aeromoça que nada, isso é prostitua da Maria Eunice.
Aí o rebu foi formado com a diretoria expulsando todo mundo, filho, pai e prostitua e mais, o pai que era sócio além de pagar multa ficou impedido de entrar no clube por algumas semanas.
Depois dessa, só contando a história de Réveillon na qual o Rogério Weber e sua turma, aprontou no meio do salão.

Origem do Bloco da Cobra


O Bloco da Cobra que na realidade era nada-mais nada-menos que a Confraria do Bar do Raul, local onde os “Cobreiros”, costumavam se reunir aos finais de semana, para colocar a “agenda” em dia. “Parecia incrível, mas ninguém ousaria negar a existência de uma misteriosa e irresistível atração exercida pelo modesto estabelecimento comercial da Rua José de Alencar sobre os “Cobreiros”, além, evidentemente, das peculiares rabugices do Raul e dos saborosos quibes e bolinhos de bacalhau feitos por Georget, sua esposa, consumidos evidentemente entre copos de cerveja e doses de uísque” (Claudio Feitosa em Gente da Gente pág. 127).
E o que o Bar do Raul tem a ver com a origem do Bloco da Cobra? Tem tudo a ver, se não vejamos. O nome pintado na fachada do estabelecimento era “Kibe Lanche Ministro” e Ministro era o apelido do cunhado do Raul Elias Jouayed dono do sítio Tokilândia que ficava na Estrada 13 de Setembro também conhecida como Estrada dos Japoneses, justamente onde hoje existem os Conjuntos Guaporé e Rio Candeias.
Foi no Tokilândia que em certo domingo de carnaval do inicio dos anos 1950, que Elias Jouayed em parceria com os amigos Durval Gadelha, Olavo, Câmara, Papagaio e Zé Fominha se refugiaram para curar a ressaca da noitada carnavalesca vivida no Bancrévea e Danúbio Azul. Como todo bom bebedor sabe a melhor maneira de se curar uma ressaca é bebendo mais uma.
Naquele tempo, a bebida preferida nessas ocasiões era a famosa Cachaça Cocal, é claro que em se tratando de “categas” do naipe de um Durval Gadelha não poderia faltar pelo menos uma garrafa deuísque dos bons. Depois de se instalarem, os amigos cuidaram em começar os trabalhos etílicos. Enquanto os companheiros cuidavam de acender o fogo para o churrasco Elias pegou uma lata para buscar água na Bica que ficava a alguns metros da casa, por um caminho entre muitas fruteiras. Quando estava descendo a escada cujos degraus eram de pau a pique, foi surpreendido com uma pancada tão forte, que se não fosse o corrimão da escada, teria caído no precipício. Elias ainda apavorado com o acontecido, agarrado ou pendurado no corrimão da escada, olhou em direção de onde havia partido a “porrada” e deu de cara com uma cobra Sucuri já se enrolando preparando o próximo bote. A sorte foi que o primeiro bote pegou na lata.
Claudio Feitosa no livro citado descreve o episódio da seguinte maneira:
“Já refeito do susto Elias olhou pra cobre e bradou – “Vou te matar, filha da puta”.
Correu até a casa pegou uma espingarda 12 e saiu no rumo da Bica. Os amigos estupefatos com a atitude e sem saber o que estava acontecendo indagaram:
- Que foi isso, Ministro? Perguntou Durval, correndo em sua direção, seguido pelos demais.
- Uma cobra quase me pegou meu colega – A filha da puta está lá no pé da escada.
Dizendo isso, saiu apressado na direção da Bica, seguido pelos demais ainda não refeitos da surpresa.
Chegando ao local, com a arma em posição de tiro, percebeu que a cobra já tinha desfeito a rodilha e se encaminhava lentamente em direção ao chavascal que começava ali perto... Alguns metros mais adiante, praticamente lado a lado com a serpente, ele desfechou o primeiro tiro atingindo-lhe a cabeça.
Quando a espoleta rachou, a reação da cobra foi a de voltar no rumo da Bica, onde o desnível mais acentuado do terreno facilitou a ação do vingador, que lhe deu mais dois tiros seguidos e perfeitos, esfacelando-lhe o crânio.
No instante em que viu a grande cobra enrolar-se em convulsões, Ministro bradou a todos os pulmões:
- Pega aí cobra danada – Eu sou é macho, sua filha da puta!
Durval, esquecendo aquela sua pacatez peculiar, deu um salto por sobre os degraus da escada e lá de baixo fez um desafio para o resto da turma:
- Agora, cambada, vamos arrastar esta minhoca até lá em cima e de lá até a cidade, na marra?
Nem mesmo acabou de falar, a turma já estava lá em baixo, com ele, agarrando a cobra que ainda se mexia, resistindo à ação dos primeiros COBREIROS que Porto Velho iria conhecer naquela tarde cinzenta de domingo de carnaval. (Conta Cláudio Feitosa em Gente da Gente no capítulo O Bloco da Cobra pág. 127 a 143).
...Durval, esquecendo aquela sua pacatez peculiar, deu um salto por sobre os degraus da escada e lá de baixo fez um desafio para o resto da turma:
- agora, cambada, vamos arrastar esta minhoca até lá em cima e de lá até a cidade, na marra...

Bom! Chegaram ao centro da cidade por volta das cinco horas da tarde mais pra lá do que pra cá, estacionaram o Jeep em frete a casa do Elias e haja luta para desembarcar a Boiúna que nada-mais nada-menos tinha aproximadamente 7 metros de comprimento. Era realmente uma Cobra Grande.
Como se fosse um troféu e no maior esforço do mundo Elias Juayed, Durval Gadelha, Câmara Lema e Zé Reis (Papagaio), colocaram a “Bicha” nos ombros e saíram exibindo pela Avenida Sete de Setembro local onde estavam acontecendo os desfiles carnavalescos naquele ano. Esse foi o primeiro desfile do Bloco da Cobra.
Ainda recorrendo ao livro “Gente da Gente” de Cláudio Batista Feitosa no capítulo “O Bloco da Cobra” (pág 127 a 143), encontramos a seguinte narração: “Nos domingos de carnaval, os cobreiros costumavam esquecer seus títulos, patentes, cargos ou funções, logo de manhã, ao ingressarem no “Templo da Boiúna ou da Cobra”: o prédio da usina de beneficiamento de arroz do cobreiro Abel Marques, ali na Av. Sete de Setembro, esquina com a Presidente Vargas. Antes aos sábados, organizavam-se os preparativos d um ritual especial ao qual se submetiam aqueles que ousassem candidatar-se ao ingresso, dia seguinte, no séquito da “serpente rainha e soberana”, indiscutivelmente uma aventura para macho, incrível, difícil e jamais esquecida!
Finalmente, vencidas as provações, neófitos e veteranos cobreiros se confraternizavam comendo e bebendo do melhor carneiro e do melhor uísque, até as cinco da tarde, horário em que costumavam receber a visita, incorporada, do Prefeito da Capital e do Governador do Território, o primeiro sobraçando a taça de campeão do carnaval do ano, cuja entrega era feita, em seguida, pelo segundo, sob os aplausos acalorados da maioria e de manifestações exageradas de alguns poucos, felizmente contidos pelos mais sóbrios. A entrega da taça por antecipação era um direito líquido e certo do Bloco da Cobra, ato considerado justo e perfeito pela maior parte dos cobreiros. Ali mesmo, para brindar o acontecimento a dita cuja taça (sempre em forma de cálice) passeava de boca em boca, inclusive das autoridades, com o melhor uísque escocês.
Despedidos os visitantes, a enorme cobra (agora uma alegoria empalhada), indócil, uma parte ainda no chão e a outra já trepada nos ombros de alguns cobreiros mais exaltados, aguardava o toque do clarim do Moraes e dom pipocar dos foguetes, para então, tendo a frente Raul Almeida ou Benedito Rondon vestido de baiana e portando um estandarte improvisado, sair orgulhosamente montada nos cobreiros, tisnados, vestidos de alegria e descontração, pelas ruas de Porto Velho, contagiando o público, enfeitando o carnaval. As crianças se assombravam, algumas mulheres menos avisadas desmaiavam de medo, mas, de um modo geral a população aplaudia a passagem entusiástica do Bloco da Cobra evoluindo, dançando sem ritmo, sem música, sem ordem e sem obediência ao rígido esquema de segurança da polícia e de apresentação das agremiações brincantes, planejado cuidadosamente pela Prefeitura Municipal que incluía passagem obrigatória perante o palanque oficial das autoridades”, escreve Feitosa. O interessante era que muitos dos cobreiros eram levados pela cobra, dado o alto teor etílico.


O ritual de introdução dos neófitos


Em virtude das condições sociais dos cobreiros, muitas pessoas faziam de tudo para entrar para o Bloco, coisa que não era tão fácil assim não.

Primeiro o candidato a cobreiro teria que ser apresentado por um membro antigo e conceituado entre os demais, passado nessa primeira etapa, teria que se submeter ao famoso teste, que geralmente acontecia no sábado de carnaval.

O teste consistia no seguinte: O carrasco (Manelão) ordenava que o candidato se posicionasse sentado em um tijolo no “Rabo da Cobra” enquanto o presidente ficava na “Cabeça da Boiúna”. Era servido ao candidato, primeiramente uma dose cavalar de uísque, uma de cachaça e uma jarra de cerveja, isso sem dar tempo ao cidadão de respirar. Engolida a última golada o Carrasco entregava ao candidato a famosa “914” que era a mistura de todas as bebidas disponíveis no recinto inclusive vinho. Manelão que foi o Carrasco por muitos anos, conta que muitos não conseguiam se levantar e ir receber o abraço de aprovado do presidente que estava postado na cabeça da Cobra. “Acontece que depois de beber toda aquela mistura o candidato tinha que seguir caminhando com as pernas entre a Cobra e sem poder tocar no couro até o presidente. Se ele conseguisse fazer esse percurso, era recebido como cobreiro no domingo de carnaval” conta Manelão.

Historias pitorescas dos cobreiros

O Dr. Abílio Nascimento conta Manelão, sempre conseguia ludibriar a diretoria da Cobra para não passar pelo teste etílico, Ele sempre apresentava um atestado médico dizendo que não podia beber bebida alcoólica porque era cardíaco. Isso durou uns três anos até que o presidente Hortência Simplício reuniu a turma e decretou: “Este ano o nego Abílio não escapa do teste”, dizendo isso virou-se para o Carrasco Manelão e deu a ordem: “Você é o responsável pela execução - executeis”. Por via das dúvidas o capitão Maravalha ou Carne Seca, nascido Francisco Braga de Paiva seringalista conceituado, providenciou 20 litros de leite de vaca in natura e entregou ao Manelão. Dr. Abílio teria que beber no mínimo 5 litros daquele leite. Na hora marcada lá estava o carrasco com o balde e uma jarra com um litro. “O Abílio tinha que beber de uma golada só”, foi a primeira tudo bem, serviu a segunda, na terceira ele começou a enguiar, mas conseguiu chegar até o fim. Na quarta jarra, ou seja, quarto litro de leite quase não termina, só terminou porque o carrasco usou de suas prerrogativas “terçadais”. O resultado disso tudo, foi que o Dr. Abílio não conseguiu desfilar pelo bloco naquele ano, em virtude de uma “caganeira” que o deixou sem poder levantar do vaso sanitário durante todo o domingo de carnaval.

Outra história contada pelo Manelão – O Dr Luiz Gonzaga além de membro do Bloco da Cobra era prefeito de Porto Velho quando o Coronel Guedes era o governador. No domingo de carnaval o João de Deus ficou na espreita da chegada do governador que iria entregar o troféu de campeão do carnaval daquele ano. “Era para o João nos avisar da chegada do governador para pararmos com a “putaria”. Acontece que João de Deus por três vezes gritou que o homem estava chegando, mas, era mentira. Quando o governador chegou de verdade o João de Deus gritou avisando e então o Luiz Gonzaga pensando que era mais uma brincadeira começou a “esculhambar” o governador de costas para a entrada, quando ele viu, Humberto da Silva Guedes bateu em seu ombro dizendo: “Vamos proceder a solenidade de entrega do troféu prefeito”


Curiosidades do Bloco da Cobra


Após o couro daquela cobra morta no Tokilândia se acabar, o Capitão Maravalha passou a trazer todos os anos do seringal São Sebastião de sua propriedade, o couro de uma cobra que medisse pelo menos cinco metros.

Depois o Claudio Feitosa mandou fazer uma Cobra de Lona medindo 8 metros de comprimento por 1.5 metros de espessura, mais tarde teve que aumentar para 12 metros em virtude da quantidade de cobreiros que aumentava todo ano.

Uma das curiosidades do povo era querer saber qual a tinta que os cobreiros utilizavam para pintar seus corpos.
Acontece que Abel Marques, Claudio Feitosa, Hortêncio Simplício, Francisco Paiva e muitos outros cobreiros de ponta, faziam publicar no jornal Alto Madeira que “A tinta dos cobreiros era importada da Groelândia e era feita com óleo de baleia misturado com areia monazítica tirada das terras onde ficava o alambique da cachaça Mula Manca, na estrada que vai pra Guajará Mirim”. Muitos acreditavam nessa história.
Na realidade a tinta era uma mistura de óleo de cozinha com óxido de ferro – pó de ferro (que era conseguido nas oficinas da Madeira Mamoré). Depois de misturada com óleo de cozinha normal, rendia muito e era fácil de passar. “Tirar aquela tinta é que era difícil. Muitas vezes a gente passava de 15 dias ainda com a orelha preta”, lembra Claudio Feitosa.

 
O Bloco da Dona Jóia

Adelaide Souza da Silva quem é, quem era?
Com esse nome acho que nem mesmo os amigos mais íntimos da família e até seus filhos não identificariam de imediato de quem se trata. Porém, se perguntarem por Dona Jóia com certeza 90% dos que moram em Porto Velho desde os idos de 1950, vão logo dizer, é a dona Jóia do bloco.
“Bloco da Dona Jóia” esse foi o bloco infanto-juvenil mais popular de Porto Velho na década de cinqüenta.
Dona Jóia recém chagada de Manaus foi morar na Avenida Carlos Gomes, justamente numa casa que ficava em parte do terreno onde hoje está a agencia do Banco Bradesco. Casada com seu Valério um entusiasta folião que depois criou juntamente com seu filho mais velho Ricardo e os amigos deste, Bainha, Cabeleira e Tário de Almeida Café a escola de samba “Prova de Fogo” hoje “Os Diplomatas do Samba”.
Bem! Dona Jóia que era professora, funcionária da Educação atuando na área de administração da Escola Normal Carmela Dutra como secretária da diretoria e por conseguinte pessoa bem conceituada na cidade, tinha um problema, não era sócia de nenhum clube social e em conseqüência, quando chegava o carnaval, era questionada pelos seus filhos Tetéia, Léo e Linda e mais tarde o Rogério por que os outros meninos e meninas do Grupo Escolar brincavam carnaval nos blocos dos clubes e eles não?
Foi então que resolveu criar um bloco infanto-juvenil, isso lá pelos idos de 1954. Reuniu com suas amigas e as convenceu a deixar seus filhos participarem do bloco.
O interessante era que o bloco não tinha um nome carnavalesco. Era simplesmente “Bloco da Dona Jóia”. Outro fato interessante era que o bloco não tinha cor padrão por um simples motivo. Em todos os desfiles dos quais participou, sempre apresentava como tema, o Filme que estava em cartaz nos cinemas de Porto Velho, principalmente os que eram exibidos nas matinês dos Cines Resk, Brasil e Cine Avenida (Lacerda).
Assim os meninos e meninas desfilaram fantasiados de “Pirata” porque estava passando o seriado do Capitão Kid. Zorro pelo seriado do Zorro e Scaramuche entre outros.
A banda (Jazz), que tocava para a gurizada pular carnaval era formada entre outros pelo Manga Rosa (trombone de vara), Ricardo filho da dona Jóia (caixinha), Bainha (surdo) e Cabeleira (afoxé) e mais o Louro no trompete.
Depois do primeiro ano era mais quem queria colocar seus filhos para brincar carnaval no “Bloco da Dona Jóia”.
O último carnaval do “Bloco da Dona Jóia” foi o de 1958 quando os foliões desfilaram fantasiados de Scaramuche.
Em novembro daquele ano (1958), seu marido Valério juntamente com seu filho Ricardo mais o Bainha, Cabeleira e Tário Almeida Café criaram a escola de samba “Prova de Fogo” que se apresentou com esse nome apenas no carnaval de 1959, pois em 1960 passou a ser conhecida como Universidade dos Diplomatas do Samba.

As Batalhas de Confete

Tudo que acontece no carnaval de Porto Velho desde sua criação em 1907, até os dias de hoje, é influencia do carnaval do Rio de Janeiro ou do carnaval de Belém do Pará. Assim foi com a introdução das Batalhas de Confete que aconteciam entre o mês de novembro até o sábado magro no mês de fevereiro ou março.

A festa era organizada pela prefeitura municipal e geralmente, acontecia na Avenida Sete de Setembro. As Batalhas de Confete eram uma prévia dos desfiles oficiais, já que a prefeitura premiava os melhores blocos de cada Batalha. Assim, os blocos dos clubes sociais Imperial, Guaporé, Danúbio Azul Bailante Clube, Bancrévea, Ypiranga e as escolas de samba, Deixa Falar, O Triângulo Não Morreu e Diplomatas, levavam para essas apresentações o que tinham de melhor (as escolas de samba não participavam do concurso apenas se apresentavam). Lembro de grandes passistas de frevo como o Julio Cezar Pontes que concorria pelo Bancrévea e do Camarão que representava o Ypiranga, era páreo duro a disputa entre esses dois foliões, o público ficava aguardando as passagens dos blocos de Bancrévea e Ypiranga só para assistir as peripécias dos dois passistas.

Durante os sábados que antecipavam os dias de carnaval propriamente dito, a prefeitura armava o palanque e promovia as Batalhas de Confete. A população da cidade em massa prestigiava a realização do evento, que geralmente começava as 17h00 e terminava no máximo as 20h00.

A grande Batalha de Confete, acontecia no Sábado Magro de Carnaval, nesse dia todos os blocos e escolas de samba se reuniam a partir das três horas da tarde, na Estação da Estrada de Ferro Madeira Mamoré para esperar Sua Majestade Rei Momo Primeiro e Único e sua Corte.

O Rei Momo embarcava na Vila de Santo Antônio numa Litorina toda decorada com motivos carnavalescos e chegava à estação de Porto Velho por volta das 17h00.

Da estação, Sua Majestade seguia para o palanque que era montado na calçada da Praça Rondon com a frente para a Avenida Sete de Setembro. Os blocos seguiam a pé a condução do Rei Momo (geralmente um Jeep), brincando carnaval ao som de suas orquestras. Ao chegar ao palanque o prefeito de Porto Velho passava oficialmente a Chave da Cidade para as mãos de Sua Majestade Rei Momo Primeiro e Único. Assim que assumia a cidade, Sua Majestade ordenava que o Arauto anunciasse as Leis que passariam a vigorar a partir daquele dia até a terça feira de carnaval.

Após essa solenidade o Rei mandava que começasse a última “Batalha de Confete” daquele carnaval e os foliões dos blocos, ao som de marchinhas e frevos pernambucanos, se esmeravam para mostrar o melhor.
As Batalhas de Confete aconteceram em Porto Velho, até o carnaval de 1960 quando o Rei Momo foi o empresário Emil Gorayeb.


Os desfiles das escolas de samba

Apesar dos blocos dos clubes sociais, dominarem os desfiles carnavalescos, nas décadas de quarenta, cinqüenta e parte da década de sessenta, Porto Velho conta com desfile de escola de samba desde o carnaval de 1946.. Segundo conta o Severino Alexandre da Silva "A escola de samba Deixa Falar do Bola Sete, desfilou pela primeira vez no carnaval de 1946". “No inicio da década de cinqüenta surge à escola de samba “O Triângulo Não Morreu” e em 1958 é a vez da escola de samba “Prova de Fogo” que no carnaval seguinte (1960), passou a ser chamada de” Universidade dos Diplomatas do Samba e hoje, é apenas "Os Diplomatas".. Os desfiles ainda eram na Presidente Dutra.
Curiosidades

Um fato interessante foi que, com a criação da “Diplomata", as duas escolas, "Triângulo" e "Deixa Falar" deixaram de desfilar, porque seus brincantes foram todos para a nova escola de samba. Isso fez com que a Diplomatas fosse à única escola de samba a se apresentar no carnaval de Porto Velho até 1964 quando surge a escola de samba "Pobres do Caiari".

A escola Pobres do Caiari surgiu exatamente, durante o desfile do carnaval de 1964 na Avenida Presidente Dutra, como bloco de sujo, daí o nome "Os Pobres do Caiari".

A Diplomatas do Samba dominou o carnaval de escola de samba durante dez anos. De 1959 a 1969 isso quer dizer, que ela foi à rainha da Presidente Dutra.


Deixa Falar a 1ª Escola de Samba

Eliezer Santos popularmente conhecido como Bola Sete, chegou a Porto Velho como Soldado da Borracha, justamente no mês de setembro de 1943, ano e mês em que o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto de criação do Território Federal do Guaporé.

Como Soldado da Borracha, Eliezer deveria, ao desembarcar no porto de Porto Velho, seguir para algum seringal, porém por se destacar entre seus companheiros, pois sabia ler e escrever, foi contratado para trabalhar no Hospital São José pelo governo territorial.

Ainda bem que ele não foi para os seringais, pois se isso acontecesse o folião portovelhense só iria assistir ao desfile de uma escola de samba a partir de 1950 quando surge a escola “O Triangulo Não Morreu”.

Bola Sete “malandro” dos bons, acostumado em sua terra natal a freqüentar as rodas de samba e desfilar durante o carnaval nessas agremiações, ao conhecer a “malandragem” de Porto Velho que freqüentava principalmente o Mocambo e a Vila Confusão, resolveu juntamente com outros boêmios e foliões, criar uma escola de samba. Foi do pensamento a realização do desejo em poucos dias e então criou a primeira escola de samba do então Território Federal do Guaporé a “Deixa Falar”.

Há alguns anos entrevistei o Porteiro, Severino Alexandre da Silva e ele contam o seguinte: “Eu estava servindo na terceira Cia de Fronteira em 1946. Era eu Antônio Leiteiro e outros que trabalhávamos no rancho, cortamos sacos de sarrapilha no fundo e do lado e fizemos a fantasia. Nascia ali o escola de samba “Deixa Falar”. O comandante ficou olhando. Tinha também o Alípio irmão do Bainha, o Preguinho apelido do Walter Bartolo, Jaime, Antônio Campo que era irmão do Cabeleira e o Inácio Campo pai; O Bola Sete era um dos baluartes e ainda tinha o Antonio Coxó e Eu com a Cobra”.


Curiosidades da Deixa Falar

Os brincantes da escola desfilavam dentro do famoso Cordão de Isolamento à frente ia o Bola Sete com uma Ma romba era o Baliza ou o Abre Alas.. Como declarou o Severino Porteiro um dos brincantes (o próprio Severino ou o Antônio Coxó posicionado) logo após o Bola Sete levava uma cobra jibóia no pescoço.


Apenas homens desfilavam na escola.

A fantasia geralmente era uma camiseta com a propaganda do Vermut Martini ou Cinzano.

Os instrumentos eram apenas Surdo, tamborins, pandeiros, ronca ronca (cuíca), agogô que era chamado de gangorra.

Os instrumentos de couro eram feitos pelos próprios brincantes e precisavam ser esquentados de vez em quando, por isso um dos brincantes era responsável pelos jornais que seriam queimados para esquentar os tambores.


BOLA SETE


Eliezer Santos popularmente conhecido como Bola Sete, chegou a Porto Velho como Soldado da Borracha, justamente no mês de setembro de 1943, ano e mês em que o presidente Getúlio Vargas assinou o Decreto de criação do Território Federal do Guaporé.

Como Soldado da Borracha, Eliezer deveria, ao desembarcar no porto de Porto Velho, seguir para algum seringal, porém por se destacar entre seus companheiros, pois sabia ler e escrever, foi contratado para trabalhar no Hospital São José pelo governo territorial.

Seu único filho Jorge Bola nos forneceu uma breve biografia: Eliezer Santos conhecido como Bola Sete, nasceu no dia 11 de agosto de 1923, no município de Itororó no estado da Bahia. Chegou a Porto Velho em setembro de 1943 como soldado da Borracha, trabalhou no Hospital São José/ foi jardineiro na praça Mal. Rondon Vendedor de bom-bom, boxer e lutador de Luta Livre criou a primeira academia de Boxe e Luta Livre do Território do Guaporé e foi o primeiro Cambista da cidade, como seus amigos gostavam de chamá-lo porque vendia bilhete da Loteria Federal e escrevia Jogo do Bicho. Precursor dos primeiros movimentos carnavalescos, além de ser criador do Movimento das Pastorinhas. Juntamente com amigos fundou a escola de samba “Deixa Falar” em 1946, a primeira escola de samba de Porto Velho e em conseqüência do Território do Guaporé; é considerado como um dos fundadores da escola de samba “Os Diplomatas do Samba” a escola do seu coração.

Bola Sete faleceu no hospital Prontocor aos 33 minutos do dia 13 de dezembro de 1985, no momento de seu passamento estavam no quarto os carnavalescos. Silvio Santos, Babá (Bola deu último suspiro nos braços do Babá), Manelão além do Dr. José Augusto
O Triângulo Não Morreu – Adulto
A escola do Morro do Triângulo desfilou entre os anos de 1953 e 1960

 
O movimento carnavalesco quando nos referimos a desfile de escola de samba, começa em Porto Velho no ano de 1946 com a escola “Deixa Falar”, comandada pelo Bola Sete. Essa escola reinou sozinha como escola de samba até o carnaval de 1953. Acontece que segundo o músico aposentado pela Banda de Música da Guarda do Território Federal do Guaporé/Rondônia, Silvério popularmente conhecido como Chore, além das declarações do advogado José Cardoso filho de um dos fundadores da escola. “O Triângulo Não Morreu” foi fundada no ano de 1952. “O verdadeiro fundador mesmo, o número UM, foi o saudoso Paulo Machado, tinha também o Cardoso, o Miguel, meu pai, o Moacir o Jia que era da cuíca (ronca, ronca), Beca e o Moraes que tocava o Clarin” lembra Chore.
Na versão do advogado José Cardoso Neto os fundadores da escola são além do Paulo Machado são; “Miguel que era guarda da Estrada de Ferro Madeira Mamoré, que foi quem convidou o velho Cardoso meu pai, o Antônio da Mangueira que morava na cabeça do morro, o Zé Marreca pai desse artista plástico Nonato Cavalcante, o Osmar que era um construtor que morava no morro e o Cabo Fumaça. Quem também deu muita força foi o Doca Marinho, o policial Zeno, o marceneiro Jia e mais alguns que não me recordo no momento”. Cardoso lembra que o Jia foi quem inventou a primeira cuíca lá no morro, era feita de couro de cobra, “enfim, era dose pra leão fazer a cuíca, meu pai também era cuiqueiro”.
A escola de samba ‘O Triângulo Não Morreu’ tem como mérito, ser a primeira escola de samba de Porto Velho a aceitar mulheres em seu desfile. Assim a esposa do sertanista Francisco Meirelles dona Abgail que morava no “pé do morro” oferecia aos brincantes o famoso “Leite de Tigre” uma batida muito gostosa preparada com a mistura de álcool e leite condensado. “Além da Abgail outras mulheres participavam Dona Guiomar que era minha mãe, dona Carmem mulher do Miguel, dona Nega cunhada do Miguel, dona Nazaré que a gente chamava de Nazaré Macumbeira que era baiana” recorda Zé Cardoso.
Foi também a escola de samba do Morro do Triângulo a primeira a colocar na avenida as figuras da Porta Estandarte e Porta Bandeira. “Minha irmã Ivonete foi a primeira Porta Estandarte e a Rosinha filha da dona Petronila foi a Porta Bandeira da escola”.
Chore lembra: “Como morava em frente à sede da escola eu participava. Meu pai era integrante da batucada, ele tocava o triângulo (instrumento). Tinha o famoso surdo treme terra que era batido pelo Miguel e pelo meu irmão Humberto.
Por falar em surdo treme terra, podemos dizer que esse tipo de instrumento foi inventado pelo Miguel. O treme terra do Miguel era feito de barrica e também era coberto de couro de cobra.Aliás todos os instrumentos da batucada da escola eram coberto com couro de cobra, surdo, tarol, tamborim e cuíca. “Naquele tempo o couro era pregado na borda de um quadrado de madeira e por isso tinha que ser esquentado de vez em quando, para não perder a afinação” lembra Cardoso. Em conseqüência do ritual do esquenta tambor, existia na escola, a figura do “carregador de jornal”. Essa pessoa em determinado momento do desfile, saia da Corda de Isolamento tocava fogo nos jornais e alguns batuqueiros esquentavam seus tambores. “Não podia ser todos os batuqueiros para o desfile não parar”.

O primeiro samba

Os ensaios da escola de samba começam no mês de outubro, porém, durante o ano todo, Miguel e seus companheiros, se reuniam aos finais de semana, geralmente aos dias de sábado, para comer “Panelada” (iguaria preparada com mocotó e as vísceras do boi ou da vaca) e tocar samba. Durante essas paneladas os sambistas da escola costumavam cantar sambas com letra de sua autoria, mas, utilizando músicas de sambas do Rio de Janeiro.
“O primeiro samba da escola foi assim: Sentou meu pai, eu muito abelhudo do lado, (naquele tempo eu tinha 13 anos), Miguel, Doca, Valdemar, Agostinho e o Black que era quem dava o tom no banjo. Aí nasceu um plagio de uma música que parece que era da escola de samba Mangueira do Rio de Janeiro. Isso por que disseram que a escola não ia sair mais, que tinha morrido e coisa e tal, porque só tinha cachaceiro aquele negócio todo. Então eles cantaram assim: "Quem foi que disse que eu não brinco mais/Hoje o Triângulo já virou cartaz/Fala escola de samba lá do morro/. É mais ou menos por aí, não me lembro da letra toda não. Sei que no fim eles diziam que a escola não tinha saído no ano anteriorporque os sambistas estavam de férias. O samba finalizava assim: ..."Que os sambistas dessa escola/Estavam de férias também".

Chore lembra-se de um samba que foi feito pelo sambista Agostinho. Cuja letra exaltava o palácio Presidente Vargas e outros prédios do centro da cidade: “Salve o nosso grande palácio rosado/Que nunca se quebrou/Ele é o prédio primeiro/Que fica na praça Getúlio Vargas/Porto Velho Hotel/Que não quer ficar pra trás/Vai dando sempre suas festas de cartaz/Tem o Tribunal de Justiça...”

Marise Castiel proíbe os ensaios
A escola fazia sucesso e seus dirigentes eram considerados pelos moradores do Morro do Triângulo, porém, em um determinado ano a escola de samba quase deixa de existir. “Acontece que o pessoal do morro fazia o carnaval no pátio da escola Franklin Delano Roosevelt que até hoje tá lá no morro. Aí a dona Marize Castiel que era Diretora de Educação expulsou a gente de lá, um dos caras que interferiu muito também se chamava Coronel Cesário que era o chefe de polícia. Foi então que o Doca Marinho construiu a puxada ao lado da taberna dele e nós passamos a ensaiar a escola de samba lá. Quando não os ensaios aconteciam no quintal da nossa casa, no quintal da casa do Miguel, quintal do Zé Marreca e no quintal da casa do seu Zé que é pai do João que teve uma lanchonete na Casa da Cultura era a mãe do João a dona Herotildes que era minha madrinha de fogueira, quem fazia o Leite de Tigre dos ensaios” conta Zé Cardoso.
Chore conta que em determinado ano, a namorada do Paulo Machado que passou a integrar a recém fundada “Diplomatas do Samba” espalhou na cidade que a escola do Triângulo não iria desfilar e então Paulo Machado compôs o samba “Lamento” cuja letra diz o seguinte: Lamento pelo que ouço dizer/Lamento se a minha escola não sair/Eu vou chorar se a minha escola não desfilar/Falaram que o Morro ia se acabar/Falaram que o Morro do Triângulo ia mudar/Foi grande o lamento dos filhos seus/Não mudou, não mudou/O Triângulo reviveu.
Os instrumentos da escola eram confeccionados pelo meu pai e o Jia que eram carpinteiros. A confecção era na Divisão de Obras do Governo Territorial que ficava na rua D. Pedro II em frente à Casa do Dr. Ary Pinheiro. Na realidade eles faziam apenas as caixas onde depois a gente pregava o couro de cobra. Depois passamos a utilizar couro de carneiro. Nos ensinaram que para se tirar o pelo do couro do carneiro tinha colocar na cal por algum tempo e depois de curtido, a gente dava uma lixada e tava pronto para pregar nas caixinhas.


Fatos pitorescos do Triângulo

A escola de samba “O Triângulo Não Morreu” tinha características próprias, como ser uma das únicas no Brasil a se apresentar com instrumentos de sopro. “É pura verdade, saia o Manga Rosa no Trombone de Vara, João Miguel e Mourão no Sax, finado Moreira que era do Colégio D. Bosco na Corneta, tinha o outro Mourãozinho que tocava Clarineta, Carlos Sinfonte no Piston o finado Duca era o tocador de tarol dessa turma”, informa Cardoso. O interessante era que a maioria desses músicos não morava no Triângulo. “Acontece que a gente fazia uns ensaios aos sábados e domingos, porém, antes de começar o ensaio propriamente dito, a turma degustava uma baita Panelada feita pelo velho Cardoso, pelo Doca Marinho, dona Julia mulher do Doca e pela dona Carmem mulher do Miguel e esses músicos iam pra lá curtir a Panelada e beber as suas.
Outro faro pitoresco da escola era que o seu Cardoso tinha três tubos de ferro com um furo que ele chamava de ronqueira. O velho botava um na cabeça do Morro, um em frente da casa dele e a terceira uns cem metros adiante da casa, quando a escola ia sair as ronqeiras estouravam, os estopins tinham tamanhos de uma forma que quando a escola ia descendo, as ronqueiras estouravam anunciando que a escola estava descendo o Morro. “A gente vinha sambando pelo meio dos trilhos da ferrovia”.
Quem trouxe a idéia de colocar a famosa “Corda de Isolamento” foi Osmar que tinha passado um carnaval em Belém e por lá viu que os blocos usavam uma corda para isolar os brincantes do povo da rua e quando chegou aqui implantou o sistema da corda de isolamento na escola do Triângulo. Era um cabo com aproximadamente duas polegadas, a emenda era feita com arame. “Naquele tempo, como não tinha esse negócio de juizado de menores, entrava muito menino no meio da escola de samba, então a corda servia para impedir a invasão da garotada também, mesmo assim não tinha jeito. O desfile era na Presidente Dutra e não tinha asfalto era no paralelepípedo. Um cara que ajudou muito a escola foi o Jacinto Pimentel”.
A escola de samba “O Triângulo Não Morreu” desfilou pela última vez no carnaval de 1960.